Todos os invernos recebemos o mesmo email: ficou duro, está estragado? Não. Está a fazer exatamente o que faz um mel que não foi tratado. O estranho, na verdade, é o que fica líquido para sempre.
Um mel é uma solução sobressaturada
O mel contém mais açúcar do que a água que leva poderia manter dissolvido em condições normais. É um equilíbrio instável por definição: mais cedo ou mais tarde parte da glucose abandona a dissolução e forma cristais. Isso é cristalizar. Não é fermentar, não é caducar, não é açucarar-se por adulteração.
A velocidade depende sobretudo da relação glucose/frutose de cada floração. A literatura relacionou diretamente a origem botânica e a composição de açúcares com o fenómeno da cristalização.1 A revisão dos açúcares do mel detalha essa base química.2
Porque umas sim e outras não

Muita glucose → cristaliza depressa. Girassol, colza, urze, dente-de-leão. Semanas, por vezes dias.
Muita frutose → aguenta líquido. Acácia, castanheiro, muitas meladas. Meses ou mais de um ano.
Os méis de melada têm ainda uma relação glucose/água baixa que atrasa o processo, embora os ricos em melezitose façam exatamente o contrário e cristalizem no próprio favo.3
A temperatura manda
O ponto de velocidade máxima de cristalização ronda os 14 °C. Acima de 25 °C o processo trava, mas acelera a degradação; abaixo de 5 °C também trava, mas a textura torna-se arenosa. A despensa a 18 a 20 °C é o melhor compromisso.
O que NÃO deve fazer
Micro-ondas. Aquece de forma desigual, ultrapassa os 60 °C em segundos e destrói enzimas. Além disso dispara o hidroximetilfurfural, o marcador que a normativa europeia limita a 40 mg/kg.4
Água a ferver. Mesmo problema, mais lento e com falsa sensação de controlo.
Pô-lo no frigorífico. Acelera a cristalização e torna-o granuloso.
Deitá-lo fora. Está perfeito.
O que funciona
Banho-maria com termómetro, abaixo de 40 °C, mexendo a cada poucos minutos. Demora entre 20 e 40 minutos consoante o tamanho do frasco. Ou simplesmente comê-lo cristalizado: sobre pão torrado é melhor do que líquido, porque não escorre.
Cristalização dirigida: o mel cremoso

Existe uma terceira via que não consiste em evitar a cristalização mas em controlá-la. Semeando um mel líquido com uma pequena percentagem de mel já cristalizado de grão fino e mexendo a frio durante dias, obtém-se uma textura untuosa e homogénea.
É um processo puramente físico: não se aquece, não se filtra, não se acrescenta nada. E dá o melhor resultado em méis de alta glucose que iriam endurecer de qualquer forma.
Um sinal, não um defeito
Um mel que nunca cristaliza costuma ter sido pasteurizado e microfiltrado: aquece-se para dissolver os núcleos de cristal e filtra-se para retirar partículas e pólen. O resultado é um produto estável no linear e mais pobre no frasco.
E há uma consequência pouco comentada: sem pólen não há verificação de origem botânica possível, porque a melissopalinologia, o método de referência, precisa precisamente desses grãos para trabalhar.5
Referências
- Escuredo, O., Dobre, I., Fernández-González, M. & Seijo, M. C. (2014). Contribution of botanical origin and sugar composition of honeys on the crystallization phenomenon. Food Chemistry, 149, 84–90. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S030881461301546X
- Da Silva, P. M., Gauche, C., Gonzaga, L. V., Costa, A. C. O. & Fett, R. (2016). Sugars in honey. En: Dietary Sugars: Chemistry, Analysis, Function and Effects. Royal Society of Chemistry. https://books.rsc.org/books/edited-volume/1813/chapter/2125161/Sugars-in-Honey
- Bong, J., et al. (2021). Composition and potential as a prebiotic functional food of a Giant Willow Aphid honeydew honey produced in New Zealand. Food Chemistry, 345, 128739. https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0308814620325243
- Consejo de la Unión Europea (2001). Directiva 2001/110/CE del Consejo, de 20 de diciembre de 2001, relativa a la miel. Diario Oficial de las Comunidades Europeas, L 10, 47–52. https://eur-lex.europa.eu/legal-content/ES/TXT/?uri=CELEX%3A32001L0110
- Von Der Ohe, W., Persano Oddo, L., Piana, M. L., Morlot, M. & Martin, P. (2004). Harmonized methods of melissopalynology. Apidologie, 35(S1), S18–S25. https://www.academia.edu/121979867/Harmonized_methods_of_melissopalynology
- Bogdanov, S., Martin, P. & Lüllmann, C. (International Honey Commission) (2009). Harmonised methods of the International Honey Commission. IHC Platform, Swiss Bee Research Centre. https://www.ihc-platform.net/ihcmethods2009.pdf
- FAO & OMS (2022). Standard for Honey (CXS 12-1981, rev. 2022). Codex Alimentarius Commission, Roma. https://www.fao.org/fao-who-codexalimentarius/codex-texts/list-standards/en/
